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27.4.08

Mr. Mestre - David Lean

Antes tarde do que nunca. Apresento a vocês o especial do cineasta David Lean e, talvez, fim do mês de Maio postarei o de Martin Scorsese ou François Truffat, ainda não sei se começarei pelos mais votados ou pelos menos votados. Lembrando que estou meio sem tempo pelo vestibular, por isso a incerteza dos posts.
No mais, deixo aqui um pouco do grandioso David Lean. Foram os filmes que consegui ter acesso, mas ficam as outras indicações da excelente filmografia do cineasta.

História: Ele veio de uma família muito tradicional e que o proibia de ir ao cinema quando criança. Seguiu a carreira de contador, mas aos 20 anos largou tudo e foi para o mundo do cinema. Começou servindo chá e carregando latas de negativos nos estúdios Lime Grove, em
Londres. Em pouco tempo passou a montador e em 1942 chegou à co-direção do filme "Nosso Barco, Nossa Alma" em parceria com Noel Coward.
Mas ele chamou a atenção dos críticos e do público com a adaptação para o cinema das obras de
Charles Dickens, "Grandes Esperanças" em 1946 e "Oliver Twist" em 1948.
Muito detalhista e apaixonado por realizar espetaculares épicos, ele criou obras inesquecíveis para os amantes do cinema a partir de "
A Ponte do Rio Kwai", que levou o Oscar de melhor filme em 1957. Seus filmes conquistaram ao todo 28 prêmios Oscar e renderam muitos milhões de dólares em bilheteria. Os recordistas foram "Lawrence da Arábia" e "Dr. Jivago", ambos da década de 60.
Em
1984 ele recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico e morreu sem realizar um sonho que era levar para as telas o romance "Nostromo" de Joseph Conrad, a história de uma república às voltas com uma revolução.Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Lean

Perfil: A marca de um dos grandes realizadores da história do cinema inglês não lhe é concedida por uma simples admiração ao cineasta. David Lean se afirmou amante de grandiosos épicos em 1957 com “A Ponte do Rio Kwai”, sendo antes um cineasta de obras mais simples, porém extraordinárias como “Grandes Esperanças” e “Desencanto”. Após seu primeiro épico, sua mania de grandiosidade e perfeccionismo detalhista só aumentaram e evoluíram a ponto de recriar realidades e cenários históricos magníficos. Obras marcadas pela fotografia e trilha sonora imponente e orquestrada tipicamente ao perfil inglês, forte e dominador. Mas Lean nunca consagrou esta postura positivamente, o que pode-se notar pelas constantes críticas aos ingleses em seus filmes sempre o mostrando interesseiro, arrogante e equivocadamente nacionalista. O choque cultural é outro aspecto observado de forma real em suas obras, em circunstâncias constrangedoras e desumanas. É impossível negar a importância de David Lean para o cinema, afinal é o criador de épicos históricos e marcantes para o gênero que hoje está em decadência. Mas Lean nem sempre agradou os críticos. A partir de “A Ponte do Rio Kwain”, a grandiosidade das obras de Lean geraram críticas vinda de François Truffat e de gente da Nouvelle Vague francesa, aborrecidos com o caráter caro de superproduções do cinema inglês, especialmente o de Lean.

Filmografia:
· 1984
Passagem para a Índia (A Passage To India)
· 1970
A Filha de Ryan (Ryan's Daughter)
· 1965
Dr. Jivago (Doctor Zhivago)
· 1965
A Maior História de Todos Os Tempos (The Greatest Story Ever Told)
· 1962
Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia)
· 1957
A Ponte do Rio Kwai (The Bridge On The River Kwai)
· 1955
Quando o Coração Floresce (Summertime)
· 1954
Papai é do Contra (Hobson's Choice)
· 1952
Sem Barreira no Céu (The Sound Barrier)
· 1950
O Grito da Carne (Madeleine)
· 1949
A História de uma Mulher (The Passionate Friends)
· 1948
Oliver Twist (Oliver Twist)
· 1946
Desencanto ou Breve Encontro (Brief Encounter)
· 1946
Grandes Esperanças (Great Expectations)
· 1945
Uma Mulher do Outro Mundo (Blithe Spirit)
· 1944
Esta Nobre Raça (This Happy Breed)
· 1942
Nosso Barco, Nossa Alma (In Which We Serve)

Três pérolas do Mr. Mestre David Lean:

1) Desencanto (Brief Encounter)

“Um sensível relato do que acontece quando duas pessoas, estranhas e casadas, interpretadas por Celia Johnson e Trevor Howard, acabam se conhecendo por acaso. É a história destas duas pessoas, unidas pelo destino, indefesas por causa de suas emoções, mas redimidas por sua coragem moral.”

Um filme que se destaca pela sua sinceridade e delicadeza. Em tempos que a traição era vista como algo sórdido e grotesco, David Lean consegue expressar com transparência a inocência de uma paixão. O destaque está no roteiro escrito com declarações tão pessoais dos personagens, assim como seus medos e incômodos, o que acaba também dando leves toques humorados a trama. A fotografia em preto e branco se destaca pela estação de trem, o Café onde os passageiros aguardam pelo trem e pelas ruas da cidade. O trem que insiste em apressar os encontros e separar os inocentes apaixonados é o veículo da insegurança vista nas expressões de Célia Johnson e Trevor Howard.
Temos com esta obra um David Lean sensível e criativo, sem grandiosidade técnica de épicos mas com um roteiro marcante, que pouco ousou voltar desde então para o gênero. Um romance único!

2) Lawrence da Arábia (Lawrence of Arábia)

“Em 1935, quando pilotava sua motocicleta, T.E.Lawrence (Peter O'Toole) morre em um acidente e, em seu funeral, é lembrado de várias formas. Deste momento em diante, em flashback, conhecemos a história de um tenente do Exército Inglês no Norte da África, que durante a 1ª Guerra Mundial, insatisfeito em colorir mapas, aceita uma missão como observador na atual Arábia Saudita e acaba colaborando de forma decisiva para a união das tribos árabes contra os turcos.”

Esta certamente é a grande obra do cineasta. O épico consagrado no mundo todo causou admiração inacabável e 7 estatuetas do Oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte - A Cores, Melhor Fotografia - A Cores, Melhor Som e Melhor Trilha Sonora) e mais 3 indicações nas categorias de Melhor Ator (Peter O'Toole), Melhor Ator Coadjuvante (Omar Sharif) e Melhor Roteiro Adaptado.
Lean usa fatos históricos, criatividade mítica e religiosa e dá a obra um aspecto político, heróico e bíblico. Diferente dos pseudo-épicos atuais, Lawrence da Arábia não é minimalista a ponto de fazer de seus personagens apenas veículo para a história. Os personagens nesta obra ganham uma imensidão complexa de atitudes e sentimentos, pondo em cena a relação do homem inglês com o deserto desconhecido. É o choque cultural que muitas vezes determina os rumos incompreendidos seguidos por Lawrence e o torna imprevisível durante algumas fases do filme, as vezes sendo até mesmo confuso por ir do “bom e herói” ao “covarde e inglês”.
Os árabes estão representados por povos de diferentes culturas em constante rivalidade, mas com um inimigo em comum, os turcos. Comum também para os ingleses. É apenas nisso que se baseia a união de ambos, mas é suficiente para que Lean crie um contexto de interesses políticos que se atrapalham ao lidar com duas nações de morais e costumes diferentes.
A trilha sonora é um registro impecável para o Cinema. A fotografia detalhista e expressiva ganha seus pontos ao filmar o deserto com planos abertos, longos e esmagadores. Um épico que só David Lean conseguiu criar.

3) Passagem para a Índia (A Passage to Índia)

“Quando duas senhoras Inglesas de ideias liberais, Mrs. Moore (Ashcroft) e Adela Quested (Davis) chegam à Índia, ficam chocadas com o brutal racismo existente por parte dos ingleses. Felizmente, o bondoso Dr. Aziz (Victor Banerjee) eleva-se à intolerância e guia as duas senhoras numa maravilhosa viagem às misteriosas grutas Marabat. Mas o passeio torna-se em pesadelo, e terrívelmente assustador. As notícias do incidente depressa se espalham por toda a Índia, acendendo o rastilho de uma bomba prestes a explodir.”

David Lean finaliza sua filmografia em grande estilo com esta obra de experiência cinematográfica belíssima. Mantêm a grandiosidade de seus cenários, trilha sonora orquestrada, planos abertos e longos, veiculado pela fotografia detalhista. Porém, talvez, aspectos nunca tão bem contextualizados antes. O choque cultural é o destaque deste exercício de expressão que cria Lean. O visual novo e olhado com desdém pelo inglês ao mesmo tempo os põe a prova de seus costumes e morais, quando são obrigados a conviver indiretamente (as vezes, diretamente) com os indianos. David Lean cria passagens complexas que exigem interpretação delicada de seus detalhes, como o encontro da senhora Moore com Aziz na mesquita e as reflexões sobre o “terrível e belo rio”. As perturbações que as inglesas sofrem nas cavernas misteriosas de Marabat também são intimistas e sensíveis, retomando a capacidade de Lean em criar situações sinceras, difíceis e humanas. Lean também discursa sobre a imposição jurídica inglesa em outras nações e as conseqüências de seus julgamentos a um ser de cultura e concepções diferentes.
E é anos após que David Lean se despede do cinema, falecendo em 1991. Obras que de uma forma ou outra interferiram na composição do Cinema. Passagem para a Índia é um exemplar disso e de todos os aspectos característicos de David Lean.

6.4.08

Mr. Mestre 2008 - Resultado da enquete

A pretensão era anunciar o resultado da enquete no mesmo post do Mr.Mestre David Lean, como eu havia anunciado. O especial do cineasta ainda não está acabado, pois não consegui ver um número de filmes suficiente. Mas será postado ainda neste mês. A falta de atualizações do blog é devido ao fato de que estou me preparando para o vestibular. Não está sendo fácil assistir e comentar os filmes, mas sempre que conseguir tempo estarei exercendo o Cinema escrito por aqui!
A seguir estão os vencedores da enquete:

- Martin Scorsese (14 votos)
- Stanley Kubrick (13 votos)
- Francis Ford Coppola (13 votos)
- Alfred Hitchcock (12 votos)
- Luís Buñuel (12 votos)
- Sergio Leone (11 votos)
- Win Wenders (10 votos)
- William Friedklin (10 votos)
- François Truffaut (10 votos)

Grande Abraço!

24.2.08

Mr. Mestre 2008

Galera cinéfila! O Eco Social está meio desatualizado, mas não acaba tão cedo. Como o Mr. Mestre foi bem recebido ano passado, este ano continuo em novo estilo. Ao final do mês de Março o primeiro a ser louvado por aqui será David Lean. Toda postagem será no fim do mês e não teremos mais a enquete mensal. A enquete é anual e começa agora! Logo abaixo está uma lista com 18 nomes (e que nomes). Os 9 mais votados serão os comentados aqui no blog. Espero que votem consciente. Cada nome está vinculado a um link para conhecer o perfil dos cineastas, caso você não conheça algum.
Enquete - Qual(is) nome(s) você quer ver no Mr. Mestre?

Stanley Kubrick

















11.11.07

Mr. Mestre - Pedro Almodóvar

O post do Almodóvar era para acontecer no início de Dezembro, mas estarei ocupado com PAIES, vestibulares e cia...por isso está aqui o último Mr. Mestre do ano, o vencedor da repescagem.
Ano que vem o Mr. Mestre será diferente. O alvo será o passado que o cinema jamais esqueceu, o passado dos gigantes. Os cineastas que serão homenageados são os velhos e bons italianos, franceses e cia. Nomes como Fellini, Bergman, Truffaut, Antonioni, Visconti, Lucio Fulci, Hitchcock, Win Wenders, Tod Browning e etc.
Aceito sugestões!
Mas agora, apresento o cinema de Pedro Almodóvar!
(PS: Ficará confuso ler minhas críticas ao filme do cineasta, sem ler o que acho dele na parte "Perfil"...aconselho que leiam).

História: Pedro Almodóvar Caballero (
Calzada de Calatrava, 24 de Setembro de 1951) é um cineasta, ator e argumentista espanhol.
Almodóvar nunca pôde estudar cinema, pois nem ele nem sua família tinham dinheiro para pagar seus estudos. Antes de dirigir filmes foi funcionário da companhia telefônica estatal, fez banda desenhada, ator de teatro avant-garde e cantor de uma banda de rock, da qual participava travestido.
Pedro Almodóvar iniciou sua atividade artística na área do teatro e do movimento vanguardista, em contato com as correntes artísticas alternativas do momento, nas quais ingressou por afinidade e com uma visão cinematográfica pouco usual. Transformado em estandarte da Movida Madrileña (movimento de renovação cultural lançado em Madri após a morte do ditador Francisco Franco), de 1974 a 1978 realizou filmes em Super 8, seu primeiro longa-metragem. Fazia a sonoplastia no momento da projeção. Sua carreira começou realmente com Pepi, Luci, Bom (1979-1980), ponto de partida definitivo do estilo Almodóvar, tanto na forma como no conteúdo. Nesse filme já aparecem todos os elementos característicos dos trabalhos seguintes (Labirinto de Paixões, 1982; Maus Hábitos, 1983; Que Eu Fiz para Merecer Isto?, 1984; Matador, 1986; A Lei do Desejo, 1986), que já estavam persentes em alguns de seus curtas-metragens: os irmãos, a mulher, as donas-de-casa, as relações conjugais turbulentas, os anúncios, a música, as fotos, as janelas, a paisagem urbana (Madri), os ambientes kitsch, a amizade entre mulheres, a homossexualidade, a transexualidade, a depravação, o absurdo ao estilo de Luis Buñuel. Em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), rompeu um pouco com seu cinema anterior, mas de um modo coerente: abandonou o frívolo e o miserável e passou para o sofisticado e elegante, sem deixar de ser ele próprio, como continuou a demonstrar em filmes como Ata-me (1989), De Salto Alto (1991), Kika (1993), A Flor do Meu Segredo (1995) ou Carne Trêmula (1997). Almodóvar transformou-se no mais popular cineasta espanhol e com maior projeção internacional, ainda mais depois de Tudo sobre Minha Mãe (1999), que lhe deu o Oscar de melhor filme estrangeiro.
(Fonte: Wikipédia, Uol Klick Educação)

Perfil: Um cineasta feminino. Almodóvar deixa claro em suas primeiras produções a marca do feminino e mantêm ainda hoje esse padrão, com algumas raras exceções. O cineasta espanhol extravasa cores berrantes, especialmente o vermelho. Um detalhe insignificante de ser discutido, mas em Carne Trêmula chega ser incomodo ver uma de suas personagens femininas com a mesma roupa totalmente vermelha quase o filme todo. Além deste ponto peculiar, Almodóvar ainda se destaca pela sua facilidade de expor situações estranhas e bem elaboradas com naturalismo de documentário, as histórias (principalmente, nas primeiras produções) parecem absurdas ou lotadas demais para um único filme, mas o cineasta cria com maestria uma realidade que convence a quem assiste. Não há deslizes de roteiro, ele faz o que sabe com leveza e transmite satisfação ao fim de suas produções.
A mulher, as cores e mais um estoque imenso acompanha as produções de Almodóvar como (já citado acima): os irmãos, as donas-de-casa, as relações conjugais turbulentas, os anúncios, a música (dramática, profunda...destacando a sua preferência pelo Caetano Veloso), as fotos, as janelas, o cinema dentro das histórias, a paisagem urbana (Madri), os ambientes kitsch, a amizade entre mulheres, a homossexualidade, a transexualidade, a depravação, o absurdo ao estilo de Luis Buñuel. Li em alguns sites que citam movimentos de câmera extravagantes, mas não acho que seja ideal citar isso pois não senti a presença de tais movimentos nos filmes que assisti, somente em algumas exceções como em Carne Trêmula e Fale com ela. Considero os movimentos de Almodóvar até certo ponto simples, mas gosto da posição que ele estabelece quando apresenta mais de um personagem em cena.
Pedro Almodóvar é um mestre, isso não se discute. Por outro lado, não agrada a todos apesar de também não aborrecer. Confesso que seu estilo não me surpreende nem me emociona, o cinema de Almodóvar é maravilho quando consigo deixar minhas preferências de lado, o que é difícil. Eu gosto do cinema insano, imprevisível e surreal de David Lynch, a visão critíca de Danny Boyle e o cinema sujo e cinematográfico de Bertolucci, que conheci a poucos. Esse cinema me impressiona, me arrepia e deixa em mim caras e bocas. Por isso não sou a melhor pessoa para falar do talento de Almodóvar, que ao meu ver faz um cinema casual e singular (muito bem feito, talvez como ninguém), mas sinto falta do ar cinematográfico, das frases incompletas e do subtendido, das cenas mudas e estranhas, é tudo muito real no cinema de Almodóvar. Gosto da linha realista de cinema, mas quando se trata de cinema político, crítico em si.
Mas...Almodóvar vai além de minhas descrições. É um cineasta que até para os admiradores dispensa tentativas de montar um perfil, suas produções falam mais.
Nas pérolas abaixo, faltaram muitas como sempre. Dei preferência aos seus filmes mais importantes e alguns mais desconhecidos, tentei conhecer produções diferentes em estilo, ritmo, gênero. Ainda assim, faltaram muitos filmes! Os filmes estão em ordem dos que mais me agradaram, de cima para baixo.

Filmografia:

Volver (2006)
La Mala Educación (2004)
Hable con ella (2002)
Todo sobre mi madre (1999)
Carne Trémula (1997)
La flor de mi secreto (1975)
Kika (1993)
Tacones Lejanos (1991)
Átame! (1990)
Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988)
La ley del deseo (1986)
Matador (1985)
¿Qué he hecho yo para merecer esto! (1984)
Entre tinieblas (1983)
Laberinto de Pasiones (1982)
Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980)

Cinco pérolas
do Mr. Mestre Pedro Almodóvar:

Carne Trêmula

“Entregador de pizza que desenvolveu paixão por bela jovem se vê em apuros quando entra clandestinamente no apartamento da moça e, durante discussão, acidentalmente atira em policial, que fica paralítico. O futuro dos três e do parceiro do policial voltam a se entrelaçar mais tarde.”

Ainda não sei o motivo certo por ter gostado tanto deste filme para colocá-lo como o melhor dos que vi do cineasta. Talvez a resposta mais correta seja a maturidade de direção e roteiro. Um dos filmes de Almodóvar que foge dos padrões do cineasta em relação a naturalidade e leveza. Carne Trêmula tem uma atmosfera pesada e personagens ricos psicologicamente, um enredo entrelaçado que gira em torno de sentimentos que transbordam, os sentimentos perigosos e esgotados. Almodóvar cria uma fragilidade imprevisível em seus personagens repletos de obsessão,culpa, paixão, mágoas e solidão e os leva a conseqüências impensáveis, marcando sua obra como um retrato do adulto apaixonado, o adulto infantil e imaturo.
Uma atmosfera cinematográfica sublime, aqui sim Almodóvar faz cinema com estilo. Cenas memoráveis! Destaque para a cena de sexo entre Victor e Elena, belamente filmada e elaborada, a cena do incêndio no apartamento tendo como fundo a trilha sonora de triste sentimento, o olhar eterno de Elena para o policial pouco antes de o tiro acontecer, entre outras. Como quase todos os filmes de Almodóvar, este também teve direito a seqüência final eletrizante, onde tudo ou dá muito certo ou muito errado.
Carne Trêmula representa para Almodóvar o começo de uma ousadia fora dos padrões, como Ponto Final (com muitas semelhanças a Carne Trêmula) representa o mesmo para Woody Allen. Um cinema de primeira!

A Lei do Desejo

“Pablo Quintero (Eusebio Poncela) é um cineasta e diretor de teatro. Quando o seu amante o deixa, consola-se com António (Antonio Banderas) um jovem que está louco por ele, mas é muito ciumento e obsessivo. Ao mesmo tempo, Pablo começa a escrever o seu novo filme, inspirado na vida da irmã, Tina (Cármen Maura), que troca de sexo para manter no passado caso incestuoso com o pai.”

Cinema polêmico e delicado! Inicia-se com uma cena excepcional na história do cinema de Almodóvar: um homem cedendo a descrição de uma cena erótica e fazendo tudo que é mandando, se esfrega no espelho, contra a cama e se masturba na frente dos dois espectadores que narram a cena que depois mostra ser o final do filme do cineasta Pablo.
Almodóvar é o cineasta menos hipócrita e preconceituoso quando constrói personagens homossexuais (Almodóvar é homossexual assumido, diga-se de passagem). A Lei do Desejo é um dos vários filmes que ele expressa situações envolvendo tais personagens, mas não com a pretensão de discutir o assunto nem criticar, apesar de não perder a oportunidade de alfinetar a Igreja Católica em suas produções de tal porte.
Neste filme o cineasta cria uma atmosfera deliciosa e envolvente. Personagens interessantes e existenciais, com destaque a Tina (Cármen Maura, maravilhosa como sempre...) que é uma personagem em conflito com si mesma, mas que esbanja espontaneidade, simplicidade e traumas camuflados em sonhos. A Lei do Desejo tem ritmo quase frenético, aos poucos se revela grandioso com as articulações que Almodóvar cria na história, entrelaçando todos os personagens com detalhes magníficos (as cartas se tornam protagonistas mais uma vez, como em Má Educação). As cartas são as provas dos sentimentos mal resolvidos escritos e os sentimentos de imaturidade enviados. Tudo gira em torno novamente da paixão obsessiva, ciúmes e mentiras que ganham vida (interessante a personagem do teatro, após ter o nome assinado nas cartas, ganhar vida...uma mentira ganhando vida)!
Um filme peculiar que com uma revisão se mostra mais do que um simples drama, uma produção que fala de sentimentos regidos por leis....leis regidas por sentimentos, o paradoxo entre o bom senso e o furor das emoções. Vale citar que Almodóvar com este filme reforça a estréia de Antonio Banderas para o cinema, antecedido por Matador, também de Almodóvar.

Fale com Ela

“O enfermeiro Benigno (Javier Cámara) e o jornalista Marco (o ator argentino Darío Grandinetti) estão num hospital. Marco aguarda a recuperação de sua amada, a toureira Lydia (Rosário Flores) enquanto Benigno cuida pacientemente da bailarina Alice (Leonor Watling), que está em coma. A solidão desses homens serve de ponto de partida para Almodóvar desenvolver uma trama sensível cheia de surpresas.”

Citado como o filme mais maduro e sensível de Almodóvar, Fale com Ela é uma obra feita de símbolos e valores, que ausenta o humor e a simplicidade padrão do cineasta para retratar relações dolorosas em diversas circunstâncias. Recebeu inúmeros prêmios e consagrou de vez o cineasta espanhol como um grande cineasta, com passagem mais do que requisitada, elogiada e fotografada pelos cantos de Hollywood.
Fale com Ela é o cinema mais significativo e rico de Almodóvar. Roteiro complexo e metafórico retratando os limites dos homens, a barreira capaz de fazer chorar um homem por sentir a falta da reciprocidade do falar. Almodóvar faz o feminino ser a causa do comportamento masculino, o sofrimento e a necessidade de comunicação com as mulheres em coma é a perfeita critica ao “desvalorizar”, e valorizar quando perdido. É comovente a atmosfera sensível e silenciosa que o filme estabelece com seus personagens imprevisíveis, loucos de amor e repletos de carência verbal, de atenção. Almodóvar faz um filme que chora os sentidos da produção com uma direção excepcional, com direito à peculiares cenas em um teatro de dança com o foco feminino, a expressão muda feminina e ainda um pequeno filme preto e branco em que um homem diminuído acidentalmente passa a viver dentro da vagina de sua amada, marcando a produção com alto grau de simbolismo e sentimentalismo.
Um cinema de primeira! Confesso que o ritmo do filme poderia ter sido mais valorizado, meio cansativo e as vezes circular demais, deixando para o final um escape linear da trama. É de fato um filme que exige sintonia e dedicação, afinal não é fácil se comover e interagir com uma história de Almodóvar quando não se tem expressões nem sons femininos.


Volver

“Após sua morte, uma mãe (Maura) retorna a sua casa para resolver problemas que ficaram pendentes durante sua vida. Aos poucos seu fantasma vai lentamente se tornando um conforto para as filhas (Cruz e Dueñas), assim como para a neta (Cobo).”

Apesar de ser o quarto filme do pérolas, Volver é o filme que mais despertou em mim satisfação e boas risadas. Almodóvar volta com seu estilo cômico, leve, casual e feminino após estremecer neurônios com obras mais pesadas como Carne Trêmula, Fale Com Ela e
Má Educação.
Volver
é um palco de saias! Elenco repleto de mulheres muito bem entrosadas, com laços familiares e pendências do passado. Mulheres lidando com situações estranhas, reagindo inusitadamente utilizando apenas o poder natural que possuem: o “dar um jeito feminino”. A personagem da belíssima Penélope Cruz dando um jeito no marido morto pela filha é uma cena tão real e bizarra que deixa qualquer um admirado com a seriedade do fato, mesmo que reagindo com risadas. A personagem de Cármen Maura (um pouco velha, mas ainda excepcional) é outra que de suas maneiras dá um jeito. O ponto marcante de Volver realmente é a harmonia entre os personagens e a história entrelaçada, os diálogos simples à la donas-de-casa e o visual deslumbrante que Almodóvar dá a sua produção, vermelha e vibrante como todas as personagens da história.
Um filme delicioso que conseguiu me envolver de tal maneira que geralmente não consigo nos filmes de Almodóvar. Riquíssimo para o cinema latino!


Má Educação

“Dois meninos, Ignacio e Enrique, conhecem o amor, o cinema e o medo num colégio religioso no início dos anos 60. O padre Manolo, diretor do colégio e seu professor de literatura, é testemunha e parte dos descobrimentos. Os três personagens voltam a se encontrar outras vezes mais, ao final dos anos 70 e 80. O reencontro marcará a vida e a morte de algum deles.”

Um filme quase auto-biográfico de Almodóvar! A idéia surgiu quando o cineasta filmava A Lei do Desejo, inclusive a cena deste em que a transexual Tina entra na igreja e reencontra um suposto padre molestador inspirou a cena semelhante em Má educação, em que Ignácio faz o mesmo.
Má Educação quando esperado como um filme altamente crítico e chocante é frustração na certa. O próprio cineasta disse que não tinha pretensões em fazer um filme voltado a criticar a Igreja Católica, mas que a presença dos padres molestadores é um fato que não poderia ficar ausente (o que acaba causando a crítica só de estar presente na trama). O filme é mais uma vez o retrato de relações perturbadas entre os personagens. Um jogo de interesses intenso, impiedade humana e fragilidades pessoais moldam a trama.
É interessante o quebra-cabeças ora montado ora bagunçado que Almodóvar cria propositalmente, dando um glamour técnico e original a obra. Mas realmente não há muita grandiosidade na obra além das situações entrelaçadas e os personagens mais imprevisíveis, interpretações, trilha sonora e montagem também se destacam.
O que mais me incomodou na obra foi a falta de cinema! Enquadramentos sem graça, cenas filmadas sem estilo e pouco aproveitadas. É extremamente vazia a cena da piscina, onde a câmera focaliza a bunda do personagem de Gael Garcia Bernal de maneira crua, amadora.
Um cinema almadovariano que pode ser deixado para trás a principio. Principalmente para os que ainda não conhecem o cineasta, apesar de ser uma história bem contada e até certo ponto original.