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24.7.08

...me dê uma risada - Gummo

Criador de Kids e Ken Park (ambos, porém, com direção de Larry Clark), Harmony Korine estréia na direção com Gummo e deixa evidente seu caráter excepcional em escrever e dirigir, características as quais são mantidas a risca em Julien Donkey Boy (Dogma #6) e provavelmente preservadas também em Mister Lonely, que está em pós-produção. Segundo Werner Herzog, Korine é a salvação do cinema americano. O seu estilo narrativo de tempo e veracidade fragmentados é constituído de imagens expressivas, desconexas, aleatórias e não necessariamente pertencentes a história, nesse caso dando a sensação de documentário nas "entre linhas".
Em Gummo essa aleatoriedade visual é o volante do cenário e dos personagens que ali vivem. A cidade é Xenia (Ohio), atingida por um tornado em 1974, o que pode ser a causa da fragmentação familiar marcante na realidade dos personagens. Aparentemente, tudo acontece em um bairro de classe média: casas americanas com jardins, abertas e sem muitas separações. O choque torna-se imenso quando percebemos o paradoxo entre o físico e o social. Trata-se da camada branca, pobre e de baixo nível educacional da sociedade americana; o lixo branco é camuflado pelo padrão físico americano, mas existe e pode ser comparado com qualquer outro contingente populacional que viva a esmo social. Os personagens são grotescos, decadentes, assumidamente reais. Dois que podem ser vistos como centrais são assassinos de gatos em troca de dinheiro, o qual é gastado com milk shake, cola e prostituta com síndrome de down. Nota-se no restante a mesma decadência social; o confronto de padrões é mostrado, crianças portam-se como adultas, porém sem muita imposição da moral em seus atos, a violência verbal é redimida a palavrões e agressividade sexual. A realidade é muito mais que consentida, mostra-se imersa nos indivíduos. São individualistas a tal ponto de não se fazerem vítimas de trauma familiar e social, o que fica evidente pelo fato da ausência quase completa de informações de parentesco, assim como discursos culposos a respeito de família. É uma camada de gente que vive guiados por eles mesmos, sufocados em dramas pessoais.
Harmony Korine cria um contexto de situações insanas, porém convincentes. A direção repleta de relatos soltos, imagens amadoras e situações pitorescas dá um clima sem perspectiva. Assistimos ao filme sabendo que não haverá clímax, assim como o cotidiano dos personagens. É um cenário tão amplo e indigesto que é capaz de aceitar como trilha sonora o heavy metal, música clássica e sucessos dos anos 50. Korine não tem receio em mostrar os diversos comportamentos que podem surgir na ausência da educação social, da disciplina dos homens. Mais que interessante é visualmente deslumbrante e singular.