15.12.07

...vinil de novo sêmen - Crash

“James Ballard (James Spader) se envolve em um terrível acidente automobilístico que acaba atingido outro carro no qual está um casal. O homem morre e a mulher fica bastante ferida, mas após o trauma e a raiva inicial ela acaba se tornado amante de James. Ao mesmo tempo passam a freqüentar um grupo que tem como fetiche a reconstituição de acidentes de carros, nos quais famosas pessoas morreram. No entanto, estas reconstituições são propositadamente feitas sem nenhuma norma de segurança, aumentando sensivelmente o risco para quem participa da simulação e criando um clima de grande excitação para a platéia. A descoberta deste estranho prazer acaba atingindo a esposa de James e as relações sexuais tendem a serem quase sempre dentro de automóveis.”

Adaptação do romance homônimo do inglês J.G. Ballard, publicado em 1973. David Cronenberg e sua mão engenhosa em expor o absurdo provocativo e repulsivo estilizado em arte consegue, talvez, fazer desta adaptação sua melhor obra. Em contrapartida, o romance de J.G. Ballard se diferencia e muito da adaptação do cineasta. O livro trabalha, estiliza e questiona o bizarro que se estabelece na metáfora aparentemente desconhecida. O foco do autor é mostrar a tecnologia e o homem interligados pelo prazer semântico sexual. Isso se torna o de menos ao decorrer da leitura quando a metáfora aos poucos se desfaz em sentidos provocativos a mente humana. A sexualidade que se cria entre os elementos, homem e tecnologia, soa quase como um ato de incesto. O homem exteriorizando prazer com sua criação, descobrindo simbioses e relações entre o meio de ferragens e novas modelagens acidentais do corpo humano, a ponto portanto de uma inversão de papéis: a tecnologia modificando e criando no homem sua nova sexualidade. J.G. Ballard vai mais além e estiliza em palavras uma nova arte, a arte da morte no colo tecnológico. A colisão entre os carros expõe um ritual de acasalamento e morte unindo homem e metal em um só ser. Esse conteúdo é muito bem trabalhado no livro. Através de descrições detalhadas e obscenas a obra se torna eficaz mesmo com sua meta bizarra e absurda, como os mais radicais gostam de definir. Se “perversão” e”bizarrice” povoa sua mente neste momento, considere-se talvez “normal” e equivocado. Ler Crash é uma experiência interessante e nova, que dispensa definição de livro para sadomasoquistas, tarados ou pervertidos, apesar de muitos apontarem os leitores dessa forma. Você não é exclusivamente o que você vê e lê. Acredito que temos a capacidade de peneirar todo tipo de conteúdo.

Não é difícil perceber que a adaptação para os cinemas da obra de Ballard no mínimo seria inviável, ainda que possível. Cronenberg se atreveu (e muito) e nos presenteou com um filme “maldito”, segundo críticos da época escandalizados pela obra ter recebido o Prêmio Especial do Júri do Festival Internacional de Cinema de Cannes. De maldito o filme não tem nada. Até mesmo perversão seria um termo exagerado para a adaptação. Não temos no filme a riqueza de detalhes nas descrições sexuais que há no livro. Os atos de acasalamento entre homem e tecnologia são descritos com precisão, apontando a ambição do autor em defender as inúmeras relações existentes entre ambos elementos, o que não vemos no filme é claro. Mesmo assim, esta é a deficiência da adaptação de Cronenberg, o foco semântico quase todo descartado. A estética da obra de Ballard está presente na ótima direção do cineasta, mas a estilização física dos atos sexuais se torna excessiva e equivocada. Sem dizer que o cineasta poupou muito em exposição física (talvez para driblar um pouco mais a censura, o que não adiantou). A cena homoerótica entre James Ballard e Vaughan deveria ser a mais cobiçada e trabalhada no filme, pois no livro representa quase que o clímax confirmado de que a tecnologia deixa no homem indefinições cegas em seu prazer sexual, mas o cineasta fez algo leve e irrelevante. Cronenberg voltou muito para a fantasia sexual e quase não usou a metáfora de Ballard. Temos no filme apenas um diálogo em que a nova sexualidade é citada, algo aproximadamente de um minuto e que no fim a exteriorização do prazer ainda se sobressai. O cineasta alterou a obra do autor tirando o conteúdo que daria compreensão a estética bizarra do filme. O que vemos é o cinema de Cronenberg. Para os que leram ao livro é comum sentir a ausência dos elementos da obra original, o livro.
Encontrei um artigo da Istoé de 1997 (leiam neste link antes de continuarem a leitura aqui) discutindo sobre Crash e a tendência artistica provocativa por meio do bizarro, polêmica, absurdos humanos e etc. É interessante o assunto abordado, mas a posição do redator é um tanto relativa e equivocada. Após a leitura percebi que trabalhos ousados a cerca do prazer estranho e desconhecido do homem são vias interessantes de discussão. Devemos respeitar na Arte as leis morais, éticas e conceituais? A opinião de Ivan Cláudio soa superficial demais para o assunto. A freqüente presença do bizarro e instigante em qualquer tipo de arte é uma saída natural do mundo. A sociedade está muito vestida a uniformes, padrões. Exibir realidade comum é fazer cópias de cópias. Exibir o provável estranho que se esconde por dentro da roupa social é mostrar mundos instrospectivos, que insistem em se omitir no meio moral e ético. O ser humano em minha humilde opinião é (heterogeneamente) bizarro e “pervertido” por natureza. Fantasias sexuais e taras estranhas estão ai para confirmar que o “provocativo” é apenas o que não se vê diretamente. Na adaptação de Crash, o termo psicopatologia aparece uma vez e já deixa marcado na obra enquanto no livro acaba se perdendo em meio de tanto sentidos. Talvez J.G. Ballard também pense como eu em relação a bizarros prazeres. Dizer que se tratam de patologia é inseguro. A camuflagem do ser humano é muito forte. Muito bem colocado no artigo da Istoé o exemplo do fotógrafo americano Robert Mapplethorpe e sua arte impensável, sexualmente suja e vulgar, beirando quase o limite bizarro do sexo. Suas obras chegaram atingir o preço de US$ 100 mil cada uma e atingiram uma popularidade relativamente grande quando foi exposta no Brasil. (Ver obras de Mapplethorpe neste link.)
Crash – Estranhos Prazeres é uma de várias obras que são taxadas de absurdas e julgadas em fins sensacionalistas de marketing para o lucro. Ao meu ver, Arte não existe. Existe a Arte dos outros, mas a Arte por si só não tem conceito. Vamos a um museu e vemos a arte dos outros, gostamos ou não. Definir Arte e dar a ela regras e leis baseadas nas nossas é equivocadamente frustrante. Sendo assim, se a Arte “bizarramente escandalizada” tem algum valor a não ser sensacionalista, não há motivos para julgá-la apenas como choque estético. Minha opinião, deixo claro!
Voltando a obra: darei 3 ½ estrelas para a adaptação pela sua direção e estética, infelizmente não posso desconsiderar a falta que a essência da obra original fez! Deixando claro que Cronenberg não acrescenta nada na obra, apenas modifica algumas coisas (inclusive o final, infelizmente). Ignorando a existência do livro, o cineasta fez o seu cinema e fez muito bem.

21 comentários:

Kamila disse...

"Crash - Estranhos Prazeres" está em cartaz nos canais do Cinemax e eu perdi todas as oportunidades para assistí-lo até agora. Espero poder assistir na próxima.

Johnny Strangelove disse...

Assim ...
estou sentindo que você está vendo o que o homem é capaz de fazer.
Eu me lembro de uma conversa que tive com um amigo meu no qual referiamos que quanto o filme for repulsivo, polêmico e devastador. prova que obras dessas dependendo da mentalidade se tornará um classico cult. porém e infelizmente há muitas pessoas que não estão prontas para receber uma descarga de bizarrice e realidade

uma pena não
abraços

cinevita disse...

Achei seu texto ótimo, mas como ainda não conferi o filme, fico neutro. Prometo fazer o possível para ver, mas Crash eu já gosto é do de Paul Haggis. Este sim, uma obra-prima.

Ciao!

Romeika disse...

O post está ótimo, mas não posso opinar quanto ao filme pq nunca o vi, na verdade, não conheço quase nada do cinema do Cronenberg, a não ser os seus dois mais recentes filmes, que me agradaram bastante. Gostaria de ver seus filmes mais antigos. Bom domingo!

Alex Gonçalves disse...

Will, uma curiosidade: o que você me diz da presença de Deborah Kara Unger? Sempre quis ver este filme somente pela sua presença. Encontrei recentemente numa locadora em VHS e logo vou locar. E estranhei no seu texto que você diz que o cineasta quis dar um pequeno “alívio” em cenas mais chocantes que há no livro. Pelo que conheço de Cronenberg, seria bizarro vendo ele suavizando o que deveria ser escandaloso.

Ronald Perrone disse...

genial... esse filme é genial! e tenho dito!

Wiliam Domingos disse...

Kamila:

Se tiver outra oportunidade, assista! Se você gosta do Cronenberg, vai adorar este...principalmente pq não leu o livro! Mas aconselho que leia tb!

Johnny:

Muitas pessoas não estão prontras para receber...mas o maior problema é o costume que já se firmou, o de achar o estranho errado, pervertido e tudo mais!

Cinevita:

Então...escrevi com neutralidade pq li o livro, e não consigo deixar de estabelecer certas exigências em relação ao filme! Mas certamente irá gostar do filme...e muito mais do livro, se tiver a cabeça aberta! (muito aberta)

Romeika:

Eu tb não conheço muito o cinema do Cronenberg...mas sei que seus filmes são de padrões raros...Imagino que Crash seja uma de suas melhores obras, mas de longe a mais "difícil" de se gostar.

Alex Gonçalves:

Nossa...Deborah Kara Unger está deslumbrante! Não conheço muito seu trabalho, mas neste ela está interessantíssima...madura, séria, sensual...enfim!
Na parte que disse aliviar...é o que acontece! Cronenberg alivia e muito na cena homoerótica entre Ballard e Vaughan. Nas outras até que não muito, mas já vi sexo mais exposto em cinema conceituado que não tinham nem necessidade de serem tão fortes...Neste filme, ele podia ter esbanjado mais!

Ronald: E sobre a matéria da Istoé? Você concorda com a posição dele...?

blogdovinicius disse...

Nunca vi esse filme, mas só vejo elogios quando alguém fala dele. Dizem que foi aí que o Cronenberg se tornou um grande diretor.

Até mais!

Vulgo Dudu disse...

Eu vi esse filme em seu ano de lançamento. Conhecia pouco do Cronemberg na época, mas o suficiente para já saber que não fazia muito meu tipo de cinema. "Crash" veio confirmar essa minha implicância com ele (acho que, dos filmes dele, só gosto de "Spider").

É bizarro, doentio, incômodo. E isso, na minha opinião, não é demérito. Acontece que o Cronemberg não acerta a dose.

Eu acho o filme tecnicamente muito mal feito. Edição fraca, montagem ineficiente, atuações que beiram o excesso e um roteiro pra lá de mal ajambrado. Ou seja, mal dirigido mesmo.

Eu considero um dos piores filmes que vi.

Ramon Scheidemantel disse...

É muito maluco esse filme. Quando o assisti não sabia do que se tratava. Ver os personagens se masturbando ou fazendo sexo quando sofrem ou vêem acidentes é mesmo bizarro.

Alex Gonçalves disse...

Will, Deborah Unger é uma das minhas atrizes prediletas. É incrível o quanto a atriz é capaz de expressar somente num olhar, num gesto. É uma pena que em muitas produções ela seja coadjuvante. Vale a pena conferir alguns filmes dos quais ela tem um enorme destaque, como “Desejo de Liberdade” e “A Força das Palavras”. Soube que ela tem cenas quentíssimas em “Crash”. Mas confesso me importar mais com a trama do filme do que da forma como Cronenberg a conduz.

Museu do Cinema disse...

Puts William, sensacional seu artigo, acho melhor chamar esse post assim.

Eu sou fã do filme do Cronenberg, assisti 3 vezes e em todas fiquei impressionado como na primeira vez. Infelizmente não li o livro, mas sempre desejei faze-lo, mas nunca encontrei, por isso não posso opinar nas diferenças de adaptações.

Acho Crash genial, ele mistura sexo (que está em tudo no mundo) com prazeres morbidos, lembro da cena em que a personagem do Spader fica excitado com a quantidade de cicatriz da personagem da Patricia Arquette. Ou na cena inicial em que Deborah Unger, indecifravelmente erótica, transa com um homem, mas visivelmente mais excitada em roçar seu corpo na lataria de um veiculo.

Acho que nós temos a tendência e a cultura de vermos o sexo como algo impuro e escondido, ou até como algo puro e intocavel. Por isso obras que discutam sobre o tema, ou falem a respeito ganham essa aura de bizarro ou polêmica, como diz o artigo da Istoé, revistinha pobre!

O sexo faz parte da natureza humana, nascemos atraves dele, explora-lo parece feio, pecado ou perversão.

Felipe Nobrega disse...

Esse é um dos poucos que não curto dele - aliás, o que menos curto é "Mistérios e Paixões". Acredito ser o livro invariavelmente superior - mas entendo as questões das linguagens distintas, e por isso acredito que o roteiro poderia ter tomado outros caminhos... enfim, prefiro outros dele. abraços

Wiliam Domingos disse...

blogdovinicius:

Não sei se foi com este filme que Cronenberg se firmou...acho q não! O cara já tinha feito Spider, Gemeos...antes! O Ronald entende disso, eu não!

Vulgo Dudu:

Então...é o que eu também sinto! O cineasta expõe todo o seu bizarro e difícil material, mas não mostra nem um contexto que torne tudo aquilo aceitável e coeso! Acho que se ele tivesse trabalhado melhor neste filme estética e sentido...teriamos uma obra-prima!
Na parte técnica...eu não chego achar ruim! Acho que muito ali é de propósito...até a trilha sonora do filme é meio "ultrapassadinha", gastante...mas ao meu ver é tudo intencionado! (Ah se Ronald vê isso q tu disse...daria uma discussão boa! RSrsr)

Ramon Scheidmentel:

Pois eh...muitos que não estão por dentro do assunto se sentem perdido com a aparente bizarrice! Faltou contexto como já disse...ai vc veria como a bizarrice é fundamentada em cabulosidades! rsrs

Alex:

Sim, a Deborah Unger tem cenas apimentadíssimas! E a contrário de vc, eu me importo muito com a forma que Cronenberg leva a trama...neste caso, meio deslocada, recortada e tal! Enfim...eu li o livro, vou calar minha boca! rsrsr

Museu do Cinema:

Cara...vlw pelo "sensacional artigo"!
Olha...vc viu tudo o que Cronenberg mostrou! Como eu disse no texto, o cara ficou mtoo focado no sexo! Deixando pra lá um pouco dos sentidos da obra original, o livro! Vc só comentou sobre o sexo...enfim, ele move mta coisa, mas é consequência de várias outras! As várias outras só lendo o livro pra sacar!
Mas o q vc disse sobre o sexo ser visto como obsceno e feio, é a pura realidade idiota!

Felipe Nobrega: O roteiro tomou caminhos certos, ora precipitado demais...pena perceber uma certa fragmentação nas ligações do roteiro, apesar de quase ter mantido a linearidade original!

Alexsandro Vasconcelos disse...

Daria 4 estrelas. Achei o filme interessante apesar de alguns errinhos perdoáveis (como o final).

Abraço

Anderson disse...

Eu simplesmente adoro esse filme, e algumas pessoas ainda o confundem com aquela bomba homônima dirigida pela Paul Haggis. Cronenberg é um dos grandes diretores da atualidade, mas sua obra ainda é subestimada. MARCAS DA VIOLÊNCIA é um dos melhores filmes da década. Abraços!

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Gustavo H. Razera disse...

Achei fascinante a exposição sobre o conteúdo de CRASH - o livro, quero dizer. Não o li e nem vi o filme, mas pelo seu comentário, aliás bem aprofundado, me deu mais vontade de ler o livro do que assistir à sua adaptação!
Em tempo: Ballard seria o mesmo autor de IMPÉRIO DO SOL?

Cumps.

Wiliam Domingos disse...

Alexsandro Vasconcelos:

O final realmente foi alterado! Não ficou agradável na minha opinião...

Anderson:

A subestimação das obras de Cronenberg é um fato que eu já pude perceber...também o cara não faz cinema para todos!
Ainda não vi Marcas da Violência, preciso ver!

Gustavo:

Império do Sol tem autoria do Ballard também! Parece que o Spielberg adaptou né?

adam disse...

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Gustavo H. Razera disse...

Sim, por isso mesmo bateu uma familiaridade suspeita...

Cumps.

Rogerio disse...

Wlliam, q post hein!!
Maravilha de texto. Nao vi esse filme ainda, e olha que tenho procurado como louco em VHS, mas sem sucesso. Vou ter que recorrer á internet, se eh que tem

Mas pelo teu texto, penso que vou comprar é o livro, de tao bom.
Falow!