29.11.07

...admirável mundo tolo - Babel

"Um ônibus repleto de turistas atravessa uma região montanhosa do Marrocos. Entre os viajantes estão Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos. Ali perto os meninos Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid) manejam um rifle que seu pai lhes deu para proteger a pequena criação de cabras da família. Um tiro atinge o ônibus, ferindo Susan. A partir daí o filme mostra como este fato afeta a vida de pessoas em vários pontos diferentes do mundo: nos Estados Unidos, onde Richard e Susan deixaram seus filhos aos cuidados da babá mexicana; no Japão, onde um homem (Kôji Yakusho) tenta superar a morte trágica de sua mulher e ajudar a filha surda (Rinko Kinkuchi) a aceitar a perda, enquanto a adolescente sofre a exclusão social e sexual; no México, para onde a babá (Adriana Barraza) acaba levando as crianças; e ali mesmo, no Marrocos, onde a polícia passa a procurar suspeitos de um ato terrorista."

Alejandro González-Iñárritu fecha com chave de ouro a trilogia sobre ligações trágicas/perdas que iniciou com o excepcional Amores Brutos, sucedido por 21 Gramas. Em Babel o cineasta não poupa sua linha de inovação e audácia que mostrou possuir durante as produções anteriores e cria seu ambiente de maiores dimensões, a atmosfera da globalização.
Neste quadro gigantesco, o cineasta mexicano utiliza novamente a teoria do Caos em sua forma comum e aceitável. Nada de borboletas. Pelo contrário, um fato que não só liga o mundo como também faz a sua lógica de funcionamento. A diferenciação é que dessa vez Iñárritu põe em cena um apanhado maior (bem maior) de situações, assuntos e discussões em meio de sua narrativa fria e trágica. O “tudo”, ao contrário do que dizem, não gira em torno de uma coisa só. É uma dimensão relacionada a um elemento comum em todas as histórias (a arma), mas cada situação se desenvolve com assuntos e rumos diferentes. É o que torna Babel um filme global e rico. Vemos histórias, mundos e culturas diferentes, mas a tragédia e o drama são universais e interligados. O que mostra ainda existirem “ligações” mesmo nos dias de hoje que o contato direto e corpóreo, foi trocado por fios e ondas “da comunicação a distância”.
Iñárritu já merece aplausos pela sua coragem! Termina sua trilogia temática com um filme de Q comercial, presente nos cinemas do mundo inteiro, o mais “maketinzado” e com Brad Pitt e Cate Blanchett no elenco! Mais coragem ainda é o fato de se tratar de sua obra mais “crítica” exposta em detalhes quase implícitos, ora em cena com leveza ora em cena com malandragem e esperteza. O cineasta aponta a intolerância, petulância e arrogância norte americana com outras culturas, a mania de sempre se julgarem vítimas de terrorismo (antes mesmo de saber as causas reias), a mídia que por mais globalizada que seja ainda é ineficiente (“talvez” intencionalmente) em informações fiéis gerando distorções e alongamentos dos fatos, o paradoxo de relação e tratamento entre mexicanos e americanos na fronteira, o choque de culturas (magistral as cenas das crianças norte americanas no México, totalmente diferente das mexicanas e das marroquinas), a exclusão dos surdo-mudos e os reflexos disso acompanhado de cenas intensas interpretadas pela Rinko Kinkuchi vivendo uma adolescente que anseia pelo seu primeiro ato sexual, entre outros. Tudo isso exposto com muito cuidado e delicadeza. Mas não há como negar as pontadas críticas, pois estão lá e muito bem colocadas.

Novamente vemos o ser humano perdendo o equilibro, a dimensão trágica que ele pode causar por agir apenas pelo instinto precipitado. E nisso Iñárritu é mais que experiente.
Tudo muito bem feito. Edição, Montagem, Roteiro, Fotografia, Trilha Sonora e afins. É inevitável a sensação de produção impecável, bem cuidada e trabalhada que todos sabem se tratar do tipo que atrai a Academia em tempos de Oscar. E atraiu. Das indicações, levou a estatueta por Melhor Trilha Sonora (mais que merecido por sinal). Uma trilha excepcional, de ápices e quedas sempre expressando a melancolia trágica, fria. A musicalidade fica ainda mais intensa no contexto de inúmeras cenas marcantes, outro ponto que o cineasta mexicano sempre dominou muito bem. Babel é como uma seqüência de um filme, sendo assim antes de vê-lo é requisito assistir o filme inicial. O que quero dizer é óbvio e necessário. Para compreender Babel é essencial que seus outros dois projetos sejam vistos antes. Não só para compreender a este filme, mas para entender o cinema de Iñárritu e seu estilo. Um cineasta que se comunica mais pelos gestos e pelo silêncio, uma característica que exige a reciprocidade entre os sentimentos do que constrói com os que espera criar em quem vê. Depois de feito isso ai sim há um crédito para as críticas. As cabíveis por gentileza, somente as cabíveis e racionais. Dizer, por exemplo, que se trata de um filme vazio soa vulgar e impensável. Uma prova de olhar superficial em uma obra que exige entendimento e análises. Assumo que não são todos que apreciam o cinema desse cineasta. Mas não gostar é aceitável, desde que não o julguem se baseando nisso. Filosofia “É ruim, porque não gosto”!? Repito o que disse na comunidade dos blogueiros cinéfilos: o que realmente há de errado com Babel? De forma alguma estou querendo dizer que o filme não contém erros, mas se há e se insistem em apontá-los, pois que indiquem com clareza os verdadeiros erros. Eu realmente fico extremamente irritado quando vejo algo bom, muito bom, ótimo ou excelente e alguns pretensiosos desmiolados(e ainda chamam o cineasta de pretensioso) criam um mundo de “falsos defeitos”. Enfim, aqueles absurdos que você lê ou escuta e logo após sente vontade de esmurrar ou bater a cabeça no teclado tentando esquecer que acabou de ler algo ridiculamente tosco e inexistente! Outro fato patético é a onda do momento. Se o filme está sendo considerado aos quatro cantos de obra-prima, não aparece quem se queixe do mesmo dando a ele 1 estrela. Quando o contrário, um filme esperado cair na crítica comercial e de mau gosto, a tendência são todos assistirem ao filme procurando os erros que quando não encontram, criam! E desculpas peço aos excelentíssimos críticos que acabam de vestir a carapuça! Afinal, cinema é isso não é mesmo!? Existe todo um complexo de ignorantes, acéfalos, arrogantes e indefinidos. Sorte também existir o lado oposto a isso, que é um primor para a sétima arte. (Sorte em dobro saber que meu blog é lido por esta camada mais rara, o que torna esse desabafo até desnecessário. Com raras exceções, claro).
É melhor pensarmos mais e melhor antes de dizer e escrever sobre qualquer coisa, principalmente sobre cinema.

16 comentários:

Felipe Nobrega disse...

Acredito que este filme é acima de tudo humano. Chega a ser visceral em vários momentos, destaco a cena em que Cate Blanchet declara seu amor todo urinada, ou então as de Rinko Kikuchi em busca de compreensão em mundo barulhento, ams tenho uma simpatia muito maior por toda sequência que envolve a história com Adriana Barraza - poucas vezes vi uam atriz se entregar de forma tão visceral, ela praticamente nos faz sofrer junto de forma "horrível" (nao sei se é bem esse o termo),d e forma a ficarmos de tal forma comovidos que... nem sei mais, mas ela de vermelho no meio do deserto até hoje está na memória. Enfim, considero este o melhor da trilogia, ou o mais bem acabado? fico com essa dúvida, pois "21 gramas" montado em sua forma original, cronólogica, não passa de um dramalhão (clarto, sei que a graça e o estilo estão na montagem...) e "amores Brutos" parece ser somente um ensaior do que estava por vir.

Wally - Cine Vita disse...

Perfeito texto Will! De verdade! Principalmente seu último parágrafo, que reflete muito do que eu sinto muitas vezes, com pessoas pretensiosas acabando com um filme sem conseguir apontar os defeitos claramente. Eu amei Babel, é um filme complexo e cru sobre as relações humanas no mundo de hoje, onde as pessoas ficam no bla-bla-bla e não conseguem parar para ouvir o próximo. A balbúrdia do "admirável mundo novo" e a desestruturação dessa torre de Babel na qual vivemos, lotadas de culturas, línguas e intenções. O painel criado por Inarritu é impecável e maravilhoso, seu filme, doloroso e preciso. Uma experiência cinematográfica forte e o melhor filme lançado no Brasil este ano até agora.

*****

Ciao!

Rogerio disse...

Esse filme foi chocante pra mim.Parece que tudo dá certo, no sentido de que naquele segundo inicial às coisas aocntecem sempre da forma mais dramatica possivel.

Tb fiquei com esse sentimento de esmurrar uma colega minha que disse que odiou Babel - mas sabe oque fiz? Fiquei quieto, pois ela pra ter dito isso, jamais entenderia o filme mesmo. Perolas aos porcos.

Adoro o Inarritu e pra mim esse é o melhor da trilogia, seguido de "Amores" e "21"

Belo texto.

Gustavo H.R. disse...

Por tudo o que Iñárrittu tem a dizer, minha cópia do filme em DVD aguarda ser vista oportunamente.

Filmes que abordam o ser humano, suas lutas, suas incomunicabilidades, é o material que há de mais rico.
Quanto aos que põem no chão uma obra qualquer, há de se entender que as opiniões variam. Ninguém é obrigado a gostar de tudo, mesmo porque enxergamos as coisas de modo diferente. Às vezes é o estilo que desagrada, às vezes é o modo de "interpretar" o filme que é meio problemático...
Mas você está certo quando críticos - em especial, os profissionais - pisam em cima de produções consagradas com fundamentos absolutamente risíveis - tanto é que escrevi sobre isso lá no blog.

Vinícius P. disse...

É meu terceiro filme favorito nesse ano e a opinião de ninguém fará com que volte atrás em relação ao que penso. De qualquer forma, entendo quem não gostou do filme, só acho lamentável que tenham criado uma "tendência" em torno de criticar o filme...

Johnny Strangelove disse...

Ainda preciso ver esse filme, curiosamente já vi pessoas se ofenderem com o filme por causa de uma suposta cena que envolve a japinha mas fico ainda mais surpreso é com a capacidade da sociedade não debater os principais alardes e problemas socio-psico-filosofico que o mundo está passando


abraços amigo

Kamila disse...

"Babel", na minha opinião, é o filme mais fraco da trilogia do Inarritu com o Guillermo Arriaga. Acho que as conexões do roteiro são super forçadas. A única coisa que eu gostei no filme, além das performances de Adriana Barrazza e de Rinko Kikuchi, foi aquela cena final em Tóquio que é uma das coisas mais lindas que eu vi em filmes neste ano de 2007.

Vinícius Lemos http://blogcinefilia.zip.net disse...

com total certeza digo que este é o mais fraco da trilogia de Iñarritu, mas ainda é muito forte ao focar a garotinha japonesa e o problema da senhora e as crianças. Penso que se essas histórias não fossem ligadas de alguma maneira, poderia dar ainda mais força ao drama, mas do jeito q está já serve como estudo de uma sociedade que mais do que não se comunicar, pouco se respeita.

http://blogcinefilia.zip.net

Wiliam Domingos disse...

Concordo com tudo o que falaram (Felipe, Wally, Rogério, Gustavo, Vinícius p. e Johnny)!

Kamila: Nunca me interessou nos filmes do Iñárritu se as conexões são ou não forçadas, convincentes. Pra mim o interessante mesmo é a intensidade e o que gira em torno das ligações...
Ah...realmente a cena final é ótima! Melhor ainda é a camera se afastando do prédio, deixando claro a insignificância do fato no todo...uma sensação de que aquilo é um fato, em uma imensidão!

Vinícius:

Acho que todas as histórias tem sua intensidade e contexto relevante! Cada uma focando uma coisa...
E cada filme da trilogia exibe um lado, uma visão! Não consigo saber qual é o melhor, ou qual mais me agrada!

Felipe Nobrega disse...

ah! só para completar - que me esqueci - para mim o Oscar deveria trer fiocado nas mãos da Adriana, pois Jennifer Hudson é dose, não me esequeço do comentário do José Wilker na apresentação do Oscar, Jennifer "... é mais uma entre milhares de atrizes negras cantoras que se encontra em qualquer esquina.." acho que foi por aí.. rsrsrs

Anônimo disse...

William


Aqui é Vebis Jr


Preciso urgente colocar teu blog aos meus favoritos....faço isso sem falta nessa semana!

Muda o esquema de coments pq apenas gente de blogspot pode comentar aqui parece!

Se gosta do Haynes, vai amar este!

Sobre Babel, gosto apenas das sequencias da japinha....A sequencia do Pitt achei muito discurso vazio....ele fazia isso tã bem!

Digo ele fazia falo do Inarritu que no protesto sabia mandar melhor!

A Sala disse...

Demorei, mas cheguei (heheheh).
Seu texto é, como muitos que li aqui, apaixonado.

Tenho grande estima por Babel, acho um filme efetivo nos protestos sem perder a veia cinematográfica, tão presente nos primeiros trabalhos de Iñrritú, que considero melhores que esse último. No entanto, quando nos deparamos com a conexão entre personagens, você disse que isso não importava, que "o interessante mesmo é a intensidade e o que gira em torno das ligações". Mas você não acha que uma atenção maior na relação entre personagens auxiliaria na verossimilhança? Que esta relação entre ficção e realidade, tão bem representada em Amores Brutos, enriqueceria ainda mais a intensidade e o que gira em torno das ligações? Afinal, as conexões do roteiro às quais a Kamila se referiu, servem principalmente para que o espectador possa se identificar com a história.

A salvação de Babel é o contexto de denúncias, que te absorve de forma voraz, a ponto de você jogar pro alto qualquer defeito que a obra tenha e venerá-la por esfregar na sua cara a realidade de algumas culturas de forma bastante universal, contextualizada pela própria mídia manipulada.

Na época em que escrevi sobre Babel dei quatro estrelas para o filme. Acho que manteria a cotação pelo conjunto da obra. Adoro algumas referências do roteiro do Arriga, sou viciado nas canções do Santaolalla e acho a montagem do filme espetacular, mas é impossível não perceber que, mesmo com tanta carga política, Babel perde bastante por não trabalhar (humanizar) as conexões.

Romeika disse...

William, eu nao morri de amores por "Babel", mas vamos deixar isso pra lah, pq depois de ler o seu texto, nao quero que vc me coloque entre os "pretensiosos desmiolados" hehe:-)

Mas como nao sou nem pretendo ser critica de cinema, isso nao importa muito. Eu nao vejo defeitos no filme, soh achei a historia no Japao meio deslocada no roteiro, acho que teria rendido um filme excelente soh com aquela personagem. Bom, deixa pra lah. No mais, gosto do estilo do diretor, e adoro os seus trabalhos anteriores, como "Amores Perros" e "21 Gramas".

Otavio Almeida disse...

Não gosto de BABEL. Não adianta... E é como a Kamila disse, tudo é forçado demais... Não vejo nada de bom nesse filme. Talvez a trilha...

Abs!

Ramon Scheidemantel disse...

Adorei Babel!
É um contrato sobre a condição humana de carência afetiva!

Wiliam Domingos disse...

Felipe Nobrega: Na boa cara....eu odeio os comentários do Wilker no Oscar! Ele soa arrogante e esnobe o tempo todo...as vezes acerta nos comentários, mas putz o cara fala muita asneira em coisas tão pequenas!

Vebis Jr.: Cara...vou olhar esse negócio dos comentários!
As sequências do Pitt não podem ser analisadas isoladas, a personagem da Cate Blanchett cria um vínculo amoroso e de fraqueza emocional muito interessante com o personagem de Pitt...enfim, achei um lado do filme que se diferenciou muito dos outros assuntos!

Rushiano: Talvez a necessidade de ligações mais "ligadas" só se torne um ponto a desejar neste filme quando comparamos com os trabalhos anteriores de Iñárritu...que são realmente mais interligados! Mas...as ligações neste continuam convincentes para mim, talvez não tão intensas...mas possíveis! (A arma liga a situação de todos...tenho que admitir que a japinha se envolve nessa ligação apenas na sua sequência final. O policial só se envolve com a família da garota, pela arma...a presença dele exterioriza na adolescente o quão perturbada se sente pela morte de sua mãe, reagindo de diversas maneira...mas fora isso, todo o ínicio de suas sequências é um drama a mais semelhante em sentido "globalizado", mas sem muita ligação em si)!
Como você disse...o resultado final acaba superando o fato das ligações!

Romeika:
De forma alguma colocaria vc na classe desmiolada! rsrsrsrs
Você mostrou um motivo para dizer que não morreu de amores pelo filme...
Eu tb acho que a história da japa isolada em outro filme, daria uma produção fodástica! Mas...eu gostei de ver ela em Babel, intercalando com as outras histórias...chega ser engraçado, posso parecer até mesmo contráditório, mas no meu ponto de vista este é o trabalho mais "descentralizado" do Iñárritu, ao mesmo tempo que se liga (pouco as vezes, mas se liga)...as histórias apresentam particularidades, dando um ar original para a obra! Mas...concordo tb com vc!

Otavio Almeida:
O que consegui entender pelo seu comentário é que você não gostou do filme...mas sinceramente, não posso considerar um argumento "tudo é forçado demais... Não vejo nada de bom nesse filme. Talvez a trilha..."!
Se você não viu nada de bom no filme...ai já é uma particularidade (problemática ou não) sua, não da obra!
O que é forçado demais!?
As ligações...ok, um crédito para isso eu até aceito! As ligações tem suas fragilidades...mas as situações em si, não são nada forçadas! Dizer que são é ter uma visão superficial e pequena da lógica do mundo, das relações...
Mas isso é uma suposição que estou fazendo em cima do que você disse...não sei o que realmente influenciou em "não ver nada no filme"!
Agora...você não ter gostado é mais do que um direito!

Ramon:
Eu diria carência afetiva e ausência de equilibrio lógico, emocional! Um instinto humano em película...

abrço a todos!