23.11.07

...de início ao dentro - Os idiotas

“Um grupo de pessoas se junta numa grande residência e dedicam-se a procurar o idiota que está dentro de cada um, entrando em "paranóia", babando-se e passando em público por verdadeiros deficientes mentais, como forma de se libertarem dos seus problemas e de chocarem as instituições burguesas.”
Antes de comentar sobre o filme quero avisar que a partir de hoje irei responder todos os comentários. Uma prática que nunca tive, mas percebi que é eficiente. Gera discussões e alongamentos que nem sempre se vêem nos textos. Sendo assim, espero que voltem a ler os comentários do blog pois irei respondê-los. Os idiotas é uma produção conhecida como Dogma #2, regida nos preceitos do Dogma 95. Não cabe julgar a obra avaliando seus exageros forçados de falhas, sua aparência quase de “vídeo amador”, microfones aparecendo e tudo mais que é permitido pelo Dogma 95. É desnecessário e sem valor, já que somente o sentido experimental da obra é o relevante.
O Dogma 95 foi formado por Lars von Trier, Thomas Vinterberg, Christian Levring e Søren Kragh-Jacobsen e o seu manifesto foi escrito pelos dois primeiros. O primeiro filme a receber o "certificado de aprovação" foi
Festen (1998), de Vinterberg, conhecido por Dogma #1. A regras do Dogma 95 são: não filmar em estúdio, não usar adereços de cena, não gravar som separado da imagem, não colocar a câmara num suporte, filmar em cor sem utilização de iluminação especial, sem filtros ou tratamento óptico, sem ação superficial (homicídios, armas, etc), no tempo presente (sem "alienação geográfica e temporal"), filmes de gênero estão proibidos, o formato é Academia 35mm (o formato clássico, praticamente idêntico ao da TV), o realizador não pode ser creditado.
Lars Von Trier através de um cinema tecnicamente “fácil” e sem frescuras (a prova de que cinema não se faz somente com dinheiro e os tão cobiçados recursos), nos apresenta uma obra imortal e peculiar. Os idiotas é um filme cheio de símbolos e sentidos inacabados deixando em aberto diversas compreensões: particulares e coletivas. Apesar de que em vagos momentos os “idiotas” em si justifiquem a sociedade criada no choque às instituições burguesas e a classe média, fica totalmente arriscado julgar a obra apenas em preceitos sócio-políticos quando um campo de dimensões psicológicas individuais mostra ser a semente dos fatos.

A prática de se passarem por deficientes mentais em público é quase irrelevante, talvez um motivo falso criado para convencer de que o fundamento político é a base essencial do grupo. A introspectividade da obra está nos momentos em que os “idiotas” procuram o idiota que existe dentro de cada um, quando passam a agir como tais em sua particularidade, sozinhos e entre eles. O ápice da produção é mostrar nesses momentos de paranóia (como é dito no filme) a melancolia e necessidade de cada um de se libertarem da camuflagem interior e exterior. É assombroso pensar que tudo que vivemos seja na verdade, uma ficção. Somos uma ficção. A libertação, a piração, a demência buscada pelos idiotas do filme é mais do que um refugio, é a busca pela realidade interior. Quando em “paranóia”, sob comportamento de insanidade, as pessoas se sentiam vivas, reais e inocentadas, viviam a natureza do ser e a expulsão do ser social. Pode parecer romântico, mas de longe deve ser encarado dessa forma. A obra de Von Trier é absurdamente incomoda de tão compreensível que se torna. O mundo e o homem cria nossa postura, nossa casca, nossa razão. Os idiotas é um grito de libertação e gozo, julgando a idiotice ser a felicidade.
O filme é cheio de momentos significativos, cenas fortes e muito bem interpretadas por um elenco de sintonia impressionante. Há momentos que a idiotice forçada atinge limites agressivos, mantendo um verdadeiro estado de paranóia no indivíduo. São inúmeras experiências que não se pode explicar. Até mesmo para o grupo é difícil entender ou explicar o que realmente buscam, gerando discussões contraditórias entre eles e ressaltando em auto analises frustrantes.
Von Trier estava realmente inspiradíssimo quando assumiu o projeto ousado e previsivelmente cult (tão cult que chega a ser rotulado em vários sites de gênero comédia). Sem dúvida um filme a mais para o cinema experimental.
Uma experiência excepcional! (Trailer - Apenas para sentir a atmosfera do filme! O trailer lembra "vídeos caseiros" e documentário, mas de longe se percebe isso no filme em si.)

19 comentários:

Bárbara Cristina disse...

will!!
vi o trailerr simm
ehh parece q a idiotice e bem forçada mesmo!
mas gostei pq tem obejtivo político pelo jeito neh?
"procuram o idiota que existe dentro de cada um"
acho massa isso
pq tdo mundo tem um idiota dentro d si ne?então...
vo ver sim!
beijos

Kamila disse...

Gosto do Lars Von Trier, mas nunca assisti a este filme. Seu texto me deixou com curiosidade para conferir o filme.

Vulgo Dudu disse...

O Dogma é, na minha opinião um manifesto extremamente contundente. Pretende um cinema livre, porém com regras. Por mais dicotômico que isso possa parecer, é uma forma de protesto contra a dominação mercadológica hollywoodyana. E funcionou: abriu os olhos do mundo para este soberbo diretor que é Lars Von Trier.

"Os idiotas" é realmente perturbador... E "Festa de família", do Vinterberg, também é ótimo.

Abs!

Bruno disse...

Olá, também já add o seu link..
Obrigado pela parceria.
Abraços

Wiliam Domingos disse...

Bárbara:
Pois é girlzinha...vc tem que ver viu! Sua cara...rsrsrs!
Mas não se trata de uma idiotice "bem" forçada...nem tanto!
O lado político é vistoso demais, por isso não é o que diferencia a obra...e sim o lado psicológico e social!

Kamila:
Se vc gosta do Von Trier, não pode deixar de ver Os Idiotas...tem em todos os quadros o dedo do cineasta em abuso!

Vulgo Dudu:
Cara...não acho o Dogma extremamente contundente! As regras são para padronizar as obras...sem elas nego ia acabar usando mais recursos do que os outros, ai sim ia ficar um manifesto contraditório.
Os idiotas é perturbador e incomodo, combinação perfeita para um filme de valor! Ah...não vi o Dogma #1, mas irei ver com certeza!

Gustavo H.R. disse...

Apesar de eu ter pego uns pedaços de OS IDIOTAS no EuroChannel há alguns anos (era uma cena de sexo explícito!), conheço muito pouco na prática sobre as obras criadas sob o signo do Dogma, portanto seu texto é informativo nesse aspecto.
Por ser provocativo e instigar reflexões mediante um conceito incomum, é uma recomendação que acabarei seguindo.

Cumps.

Ronald Perrone disse...

Lars Von Trier gênio!

Vulgo Dudu disse...

Então William, não acho que as regras sejam para padronizar, e sim para desconstruir um conceito de cinema que estava dando mais importância ao tecnicismo do que à criatividade.

Além de uma crítica, é um exercício criativo. Exatamente como no SENSACIONAL e altamente recomendável doc "The five obstructions", no qual Von Trier vai criando barreiras criativas para um diretor que precisa contar sempre a mesma história.

Logo, eu acho o Dogma contundente na medida em que há um desapego total ao cinema romanesco. É uma provocação (e ninguém melhor que Lars Von Trier para provocar os estadunidenses...) ao conceito mercadológico, uma antítese de um certo mercantilismo cinematográfico.

Na minha opinião, é repensar e exercitar cinema. Exatamente como Von Trier faria mais tarde em "U, S and A". Dá gosto de ver!

Abs!

Wiliam Domingos disse...

Gustavo:

Você pegou a essência da obra...mais do que um passo dado! Como um bom e introspectivo crítico que és, você irá ingerir muito sentido da obra!

Vulgo Dudu:

No seu primeiro comentário você disse que o Dogma pretende um cinema livre. Talvez a contradição esteja nisso, como você disse. Mas talvez nem nisso esteja, se consideramos que a proposta do Dogma não é um cinema livre. Pensando bem, se há regras...destrói a liberdade em si de fazer o cinema!
O que se torna muito confuso, afinal...o Dogma é apenas uma facilidade financeira, um protesto aos padrões (se tornando contundente nesse caso)?
(você está na comunidade dos blogueiros cinéfilos!?)
abrçs!

Andressa Cangussú disse...

Nossa, que interessante viu!
Em que mundo eu vivia que não conhecia esse lance de Dogma?!
Só sei que achei muiiito interessante! E além dos questionamentos já levantado até aqui, cabe o seguinte: esse tipo de cinema simples, sem muitos recursos tecnicos e limitações, inclusive temáticas,
tem alcance de público?

É sim uma forma de mostrar q cinema pode ser feito "com uma ideia na cabeça e uma camera na mão", mas o próprio público se moldou ao cinema bem elaborado e tende a não se acostumar com uma regressão técina, não?

De qualquer jeito, é fato que o preciosismo técnico invadiu as salas de cinema, deixando outros valores de lado, logo, o protesto é válido!

Abraços colega!!!
PS: A mostra terminou, vi filmes muito bons e nessa semana vão pro blog!
PS2: vê se move uns pauzinhos e tenta vc mesmo converncer alguem do avanço que seria ter uma mostra de cinema! Deve haver quem compre a idéia ;)

Felipe Nobrega disse...

Willian, considero o movimento Dogma um embuste, não consigo ver cinema ali - aquilo é outro nome que nem eles sabem definir, mas chamar de cinema é forçar a barra. Não consigo suportar Lars Von trier, mas assisti seus filmes, pois só assim teria dimensão de seu trabalho e não apenas lendo sobre ele. Eu acredito que os "dogmáticos" partemd e uma estratégia de marketing descarada, onde fazem um cinema que quer se julgar "não cinema" e seguir preceitos - leis, regras, mandamentos - que fazem com que a mídia os anuncie como "nova onda", modinha básica de cada período. OU seja, eles queriam holofotes acima de tudo, por isso criaram esses absurdos de leis... nada mais tradicional que criar mandamentos. Por isso os julgo uns marketeiros de plantão que enganram boa parte do publico cinematográfico e da suposta mídia especializada. Fica a pergunta: por onde eles andam? a não ser Lars Von Trier, que sobrevive mais de factóides do que justamente de cinema (sua trilogia da américa, por favor... pseudo blablá de quinta). Para mim o dogma é como o cinema iraniano - modo passageira da intelectualidade cinematográfica (atualmente estamos saindo da onda do "terror chinE^s"). Mas o que virá depois disso?

Wiliam Domingos disse...

Andressa:

Você questinou sobre dúvidas que ficam no ar...eu também não sei se tem o alcance do público (imagino que para o público nacional sim!), mas tem alcançe de premiações e festivais internacionais! Além de divulgar o nome dos dogmáticos...uma forma de reconhecimento!
Concordo com você em tudo...acredito que cinema se faz com uma idéia boa e uma camera na mão! Não podemos nos acostumar ao restrito padrão técnico que Hollywood vem estimulando crescer a cada filme...cinema, afinal, é arte ou é produto de burguês empresário!?
Por isso novamente concordo com vc...o protesto é válido!

Felipe:

Em quase tudo discordo de você!
Não falo sobre Lars Von Trier em relação a ser bom ou ruim, pois não conheço muitas obras dele...nem a da trilogia das américas, mas em Os Idiotas eu vejo sim Cinema de arte realista e importantíssima, um trabalho sério desempenhado com muito talento! Por ai, fico na posição de admiração do cineasta!
Não saiba que o lance do Dogma daria tanta discussão...
Pesquisei mais e entendi melhor!
De forma alguma os dogmáticos são uns marketeiros...na minha concepção!
O Dogma é um protesto descarado ao tecnismo absurdamente caro e monopolizado que o Cinema de hoje se molda...é uma forma de mostrar que se faz cinema sim, mesmo com baixa qualidade técnica (de maneira alguma defendem a baixa qualidade, mas a usam para realçar a deficiência de recursos financeiros).
Não consigo entender o motivo de você não ver cinema no Dogma...eu vejo, discaradamente vejo!
As regras são para não fazer do protesto, algo nomeado apenas com "protesto" mas totalmente elitizado em recursos econômicos! Não faria sentido...

Mas...é o meu modo de ver! Que fique claro!

Sobre os outros filmes do dogma...
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_filmes_reconhecidos_pelo_Dogma_95

São muitos!!!!!!

Felipe Nobrega disse...

Willian, que se faz cinema com pouco dinheiro isso é inquestionavel, porém acredito que temos que pensar o 'limite" do pouco dinheiro, até quando não passa de exercício intelectualóide querer ser "pobre" financeiramente (e aí é uma das meus argumentos para o moviomento ser marketeiro)e deixar de lado qualquer qualidade que os recursos possam trazer. Porém entendo que esta é uam questão pra lá de profundo e que tem como ponto inicial a pergunta "o que é arte?" - que com certeza para ser respondida precisa de muita leitura.
abraço. (ah! tb prefiro esse sistema de comentar os conentários, adotei ele não faz tanto tempo tb.)

Ronald Perrone disse...

"Lars Von Trier, que sobrevive mais de factóides do que justamente de cinema (sua trilogia da américa, por favor... pseudo blablá de quinta)."

Perdoai, Senhor... ele não sabe o que diz.

Dogville é a maior pisada no ser humano que eu já vi no cinema, além de ser 3 horas de um exercício estético dos mais impressionantes!

Alexsandro Vasconcelos disse...

Cara, nunca assisti esse filme não e nem tenho boas indicações pra ele. Até me espantei quando vi 5 estrelas. O texto e sua indicação agora me deixarma curioso para assisti-lo. O difícil vai ser achá-lo em alguma locadora. =P

Abraço

cafe pequeno disse...

Ronald, cuidado com as "modinhas", por acaso "Dançando no Escuro" é pisada no ser humaho, ou seria: "coitada da ceguinha, olha como ela é explorada... vamos todos chorar...". Enfim, à parte as brincadeiras, acredito que Lars pode er criado algo impactante no sentido visual, mas esse impacto vai se esvaindo pouco a pouco na tela e o impacto se mostra... vazio.
ah! poderíamos levantar outars questões sobre essa trilogia americana (que vamos ser sincero, tem um q de implicância com o cinema americano)mas aí o nosso colega blogosférico teria que fazer outro post.
Seria um post mais ou menos assim: "cinema americano x europeu - alguém está errado?". Enfim, as vezes fico com a sensaão que crio algumas polêmicas... mas, tem q ter opinião, para o bem o para o mal.
abraços. reflete ronald.

Wiliam Domingos disse...

Todos:

Os blogs de cinema exige polêmica e opiniões diferentes...é bom quando isso acontece!
Todos podem dizer o que pensam, todos podem responder o que foi dito da forma que quiserem! Olha só que coisa boa...rsrsrs
A polêmica é um combustível para o conhecimento aprofundado...sempre intensifica o assunto!
Ta certo...as modinhas irritam! Mas fazem parte! rsrsrs
Afinal...no próximo post, tudo está neutro novamente! Sem ressentimentos....estou errado!?
xD

Ronald Perrone disse...

Modinha? Eu conheço os filmes do Lars da época de O Elemento do Crime, Europa, Medea. Quando Breaking the Waves lançou Lars no mundo, eu já era fã. E eu disse que Dogville era uma pisada no ser humano e não Dançando no Escuro. E desde o primeiro filme dele eu venho refletindo e absorvendo seus filmes, e a cada revisão só encontro mais motivos pra gostar. Dançando no Escuro é exatamente isso que vc falou: "coitada da ceguinha", mas é um puta "coitada da ceguinha" bem realizado com uma linguagem estética das mais impressionantes, tanto que é um dos meus filmes de cabeceira, e o "vamos todos chorar", é verdade, não existe uma vez que eu tenha assistido o filme que eu não tenha chorado, e olha que assisti muitas vezes. O impacto visual que ele causa pode se esvaziar pra quem não acompanha o discusso.

Ronald Perrone disse...

Já a implicancia com o cinema americano, não sei de onde você tirou isso. A implicancia não é com o cinema americano e sim com os Estados Unidos de um modo político e social. Dogville retrata muito bem isso e Dançando no Escuro também, não tem nada a ver com o cinema...

Concordo que cada um deve ter sua opinião. Não é porque Dançando no Escuro funcione muito bem em mim que é obrigatório que funcione em você, agora dizer que ele cria um impacto visual que vai se esvaindo, pra mim é encontrar defeito onde não tem só pra subestimar o cara.